Entrevista, Empreendedorismo

À conversa com Inês Santos Silva: O futuro tem futuro?

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Sérgio Gomes da Costa - Quando duas pessoas se encontram pela primeira vez, surge quase sempre a pergunta “o que fazes?”. Qual costuma ser a tua resposta?

Inês Santos Silva - A minha resposta é muito fácil. Sou directora executiva de uma empresa de consultoria chamada Aliados. Comecei há dez anos a trabalhar na área do empreendedorismo tecnológico em Portugal, um campo que estava a crescer muito rapidamente, depois fui avançando para questões um bocadinho diferentes, como o futuro do trabalho e da economia circular, áreas onde ainda há muito para fazer. Mas também acredito que isto, daqui a uns anos, vai deixar de fazer sentido, quando já não trabalharmos [risos].

Lá está, a pergunta não orienta obrigatoriamente para o trabalho, mas a nossa resposta vai sempre nessa direção. Isto é, temos tendência para achar que é o que nos define. Estudaste gestão, não foi?

Estudei gestão na Faculdade de Economia do Porto, mas não fiz mestrado, fiz um conjunto de formações diferentes [1]. Estive dez semanas nos Estados Unidos na Singularity University, onde aprendi muito sobre o impacto da tecnologia no mundo. Foi há precisamente seis anos que lá estive. O mundo mudou tanto desde então que hoje posso dizer que estávamos completamente errados sobre o que vinha a seguir. Havia um grande optimismo em relação ao futuro e acho que ninguém anteviu o impacto que algumas das tecnologias desenvolvidas nos últimos anos iriam ter.

[1] A inês participou no THNK Creative Leadership Program, focado em ferramentas de liderança e, mais recentemente, frequentou o altMBA do Seth Godin, onde esteve em contacto com pessoas de toda a Europa.

É uma formação diferente da tradicional, mais focada em temas do que em graus académicos. Achas que a formação existente nas universidades está adaptada ao actual momento de transição?

Já mudei tantas vezes de resposta a essa pergunta. Quando estava na faculdade achava que não. Mas depois percebi que esse é o momento certo para pensar. Eu estava numa faculdade conhecida por ser exigente e tive a sorte de estar envolvida em imensas actividades, desde frequentar estágios a liderar organizações. Portanto, a experiência que eu tive na faculdade era quase impossível de ter fora dela. Há uns anos atrás, ouvi dizer que, independentemente do que aconteça ao nível do ensino, o conceito de universidade vai existir sempre, nem que seja pelo fator humano. A educação online não vai substituir a nossa necessidade de estarmos num espaço físico onde podemos aprender uns com os outros e desafiarmo-nos mutuamente.

Tens vindo a criar várias iniciativas com base nessa ideia. Isto é, eventos em que se pode ouvir alguém e ter novas ideias. Foi isso que te levou a interessar pelo empreendedorismo?

Há momentos da nossa vida em que se abrem janelas e esse foi claramente um deles. Em 2010 fui ao TEDx Oporto e isso marcou-me. Nesse mesmo ano candidatei-me a fazer uma summer school sobre empreendedorismo, concorri à direcção do Clube de Empreendedorismo [2] da Universidade do Porto e organizei o TEDx Youth@Porto. Acho que sempre acreditei no valor de as pessoas colidirem positivamente umas com as outras. Ao organizar este tipo de eventos conseguia unir pessoas, transmitir-lhe conhecimento e criar novas sinergias a partir daí. Eu vi o impacto que isso teve em mim e quis replicá-lo.

[2] Perdeu por um voto, mas estava no sítio certo e com as pessoas certas para começar a sua jornada no mundo do empreendedorismo.

Criar iniciativas é, hoje em dia, quase uma profissão, uma forma de uma pessoa se afirmar no mundo profissional. Tornou-se um cartão-de-visita

Eu costumava dizia que se vivesse em Londres ou em Paris não organizaria nada, porque não precisava. Mas em Portugal, entre 2010 e 2014, sentia que se quisesse fazer parte de alguma coisa diferente teria de ser eu a fazê-la. Acabei por sentir a necessidade de empreender dessa forma, tentando resolver a necessidade que eu tinha de criar momentos onde pudesse ter conversas interessantes. Era a desculpa perfeita!

Isso demonstra que ser empreendedor não implica obrigatoriamente criar empresas.

Eu não sei se uma pessoa nasce empreendedora, se cresce empreendedora, se se transforma numa, mas toda a gente, de alguma forma, em algum momento da vida, empreende. Cria coisas, arrisca, dá um salto no precipício, e depois vê o que acontece. Eu sempre senti uma grande vontade de fazer algo acontecer.

Há uma questão que surge muito nas entrevistas de emprego, que é sobre o que uma pessoa se vê a fazer daí a cinco ou dez anos. Ainda faz sentido esse tipo de perspectiva?

No primeiro dia da faculdade, lembro-me de alguém perguntar o que queríamos fazer quando acabássemos o curso. Eu não fazia a menor ideia, mas uma rapariga à minha frente disse que queria ser gestora hospitalar. Eu pensei “como é que uma pessoa com 18 anos sabe que quer ser gestora hospitalar?” É tão específico. Hoje sei que não seguiu esse caminho e provavelmente nunca seguirá, mas assusta-me essa certeza sobre o futuro. Eu não consigo ter essa clareza sobre o que aí vem, mas quero garantir que faço aquilo que gosto e que isso pode criar um impacto positivo. O meu sonho agora é que se criem as condições para haver um Rendimento Básico Universal, que haja uma dissociação clara entre o rendimento e o trabalho.

Lê a entrevista completa na edição 3 da Nevoazul