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Peculiaridades da vida moderna: Com Jacques Tati.

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A tecnologia está presente em quase todas as tarefas que desempenhamos no nosso quotidiano. Fazemos sumo de laranja no espremedor elétrico, aquecemos o leite no micro-ondas, trabalhamos através de computadores e seguimos o percurso do autocarro através do telemóvel. Peculiaridades da vida nas metrópoles,cidades gigantes e metálicas. Parece que não conhecemos o mundo sem elas, de tão presentes que estão no nosso quotidiano, mas não têm mais do que 500-700 anos.

A distância até à realização dos nossos sonhos e ambições tecnológicas é imensa. Deslumbrados por esta fantasia de um mundo melhor, pelas utopias de Frank Lloyd Wright e dos seus carros voadores, deixamo-nos frequentemente enganar, acreditando que a tecnologia é a solução inquestionável para o futuro. A velha falácia que nos faz comprar mais, preservar menos e substituir as relações humanas por máquinas num piscar de olhos.

A crítica à modernidade tecnológica é frequentemente retratada na sétima arte. Charlie Chaplin no filme Tempos Modernos, Jacques Tati no filme Mon Oncle. É sobre o segundo que nos debruçamos. O que nos encantou? A suavidade das cores, a rigidez da arquitetura, duas sociedades antagónicas numa só cidade – Paris. Tati, realizador e ator francês, conseguiu introduzir neste seu colorido filme uma beleza inocente e quase romântica com uma composição esteticamente apelativa que o diálogo entre as personagens é desnecessário.

Mr. Hulot, representado por Tati, é uma alma antiga que usa sempre um sobretudo bege, cachimbo e chapéu e vive na parte velha da cidade, onde as relações são baseadas na honestidade e na espontaneidade. Para Mr. Hulot entrar em sua casa precisa de deambular por uma série de escadas, passagens, janelas e pessoas. Uma das características de viver no sótão de um prédio antigo da cidade velha de Paris. Quando finalmente entra em casa, vemo-lo a abrir uma janela e, estranhamente, esta ação faz um canário começar a cantar. Quase que poderíamos pensar que se tratava de uma engenhosa janela, com um mecanismo automático para o fazer sentir-se relaxado e calmo. Mas não nos vamos deixar enganar. O futuro ainda não chegou ali. Era apenas um pássaro que cantava quando o sol refletido na janela o iluminava.

Na cidade velha há varredores de ruas, mas os passeios nunca estão limpos. Mercados de frutas, vegetais e peixe. Mal entendidos, pazes que se fazem rápido. A senhora do rés-do-chão que passa a camisa a Mr. Hulot, o senhor de pijama que se deixa passear pelo seu cão. Mas por detrás do muro de pedra caído, Jacques Tati retrata uma realidade onde a naturalidade não tem lugar.

A mecanização e o materialismo dominam a periferia de Paris, onde vivem os Arpel, a irmã de Hulot e o seu abastado cunhado. Eles introduzem-nos num futuro em que a simplicidade não é mais do que a complicação das tarefas fáceis do dia-a-dia. A casa é uma combinação de gadgets, botões que cozem ovos, olhos eletrónicos que abrem portões e até uma fonte, em forma de peixe, que enfeita o meio do jardim. Mas esta só é ligada quando os convidados chegam. Uma vaidade que só impressiona aqueles que não têm nada melhor em que pensar.

Hulot vê-se perdido neste mundo, onde a tecnologia é retratada como um paradoxo e a procura pelo minimalismo, limpeza e inovação resulta na complexidade, apatia e caos. O exemplo perfeito de como o automatismo das máquinas acentua a falta de genuinidade das relações sociais e a escravidão moderna.

Na cidade nova, tudo é automático e massificado mas vazio e solitário. Gerard, o sobrinho de 10 anos de Hulot, é a personificação desta realidade. A tecnologia, as máquinas e as convenções forçadas não o cativam, mas um assobio à hora certa é capaz de lhe roubar o mais honesto dos sorrisos. Se por um lado o consumismo da família Arpel e a sua casa parecem revelar um desejo desconcertante pelo futuro, as suas ações mostram um certo conservadorismo. Pelo contrário, Hulot vive numa zona antiga de Paris, mas o seu à-vontade com o que o rodeia faz dele uma pessoa mais liberal e espontânea.

As diferenças entre os dois lados do muro de pedra representam o futuro e o passado, as novas tecnologias e as tradições. Dicotomias que encontram um equilíbrio na personagem do pequeno Gerald. Alguém que conhece os dois mundos e não se importa de serpentear entre eles, aproveitando o melhor que cada um tem para oferecer.