Artigo, Ciência

A comunicação de ciência chega a todos

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A ciência é feita no secretismo de laboratórios e instituições académicas, mas os seus resultados pertencem à sociedade. No entanto, há um grande desafio neste transporte de informação - quando as investigações não são transmitidas de forma eficiente e adaptada, a mensagem fica comprometida. Afinal, a comunicação de ciência não vem só de quem a faz intencionalmente - mas também de quem a partilha. E aqui, quem conta um conto não pode acrescentar um ponto, uma tarefa especialmente complicada a partir do momento em que há tantos contos e tantos pontos num só lugar: a internet.

A boa comunicação de ciência surge quando cientistas e experts se dedicam a adaptar (e até a humanizar) os dados complexos que foram analisados e interpretados durante os processos de investigação. As instituições académicas portuguesas têm feito um esforço para valorizar e empregar mais profissionais na área da comunicação de ciência, e consequentemente há mais eventos e projetos de divulgação de ciência na sociedade e nas escolas.

No entanto, ainda que isto se pareça como um dogma de duas frentes - a de quem faz ciência e a de quem a recebe - há uma terceira frente que surge de forma inevitável: a de quem a partilha.

As redes sociais estão a ganhar popularidade como um meio privilegiado na procura de notícias e de informações, mas com popularidade vem também preocupação. Os dados considerados “junk”, isto é, conteúdos provenientes de fontes duvidosas e de caráter falso, são partilhados quatro vezes mais no Facebook.

A terceira frente da comunicação de ciência surge no cerne desta questão digital: se vemos um post numa rede social alusivo a um qualquer conteúdo científico, e de imediato partilharmos essa informação junto da nossa rede, estamos, inevitavelmente, a fazer comunicação de ciência. Mas será que a estamos a fazer bem?

Assim surge a responsabilidade. Se somos utilizadores de redes sociais, então somos mais do que meros consumidores conteúdo - somos igualmente produtores e comunicadores de ciência, logo responsáveis pelo que promovemos através da partilha.

Quando partilhamos notícias e informações falsas no campo das ciências, influenciamos a perceção de uma comunidade em relação a um tópico científico. A ciência pode e deve ser fascinante, mas antes, tem que ser verídica. Isto deixa-nos com a questão: como é que uma pessoa que não é especializada em ciência, pode partilhar conteúdos credíveis sobre esta área?

Há várias soluções, e a primeira passa por apelar à curiosidade e procurar informação. O conhecimento é uma ferramenta poderosíssima na luta contra as notícias falsas e todos nós podemos fazer a diferença nesse sentido. Para tal, não é preciso recorrer desesperadamente a livros extensos e complexos. Há cada vez mais organizações e instituições onde a partilha de conhecimento científico acontece de forma leve mas completa. Nomeadamente nos centros de Ciência Viva, que organizam eventos e projetos para todas as idades em centros de investigação e até feiras de ciência onde se aprende tanto como se imagina. Claro está que não se aprenderá tudo, mas certamente aprender-se-à o suficiente para conseguirmos desenvolver uma característica essencial na ciência - o espírito crítico. O poder de questionar se um post é verídico, é paralelo ao poder do conhecimento. Quanto mais se sabe, mais se critica e quanto mais se critica, menos junk se partilha.

Uma solução mais rápida e assertiva para a partilha de informação certificada abrange os fact-checkers (em português, “verificadores de factos”), plataformas onde jornalistas e profissionais de comunicação criticam notícias virais, mas questionáveis. Funcionam como polígrafos que detetam a veracidade do conteúdo que anda pelos nossos feeds e denunciam falsidade. Muitas destas plataformas focam-se em propaganda política e notícias de conteúdo generalista, mas também há espaço para o conteúdo científico. Internacionalmente, o FactCheck.Org, um fact-checker norte-americano abrange uma multitude de conteúdos, desde a política ao ambiente. Especificamente para ciência, tem ainda uma secção específica para denúncia e análise de notícias, o SciCheck, a plataforma ideal onde se desmente muita informação científica. Os leitores e interessados podem inclusivé submeter questões diretamente aos profissionais via e-mail e aguardar por uma resposta.

Como nem tudo o que é viral nos Estados Unidos é viral por Portugal, claro que se prende a questão: e verificação de conteúdo português?

Por cá, o Observador desenvolveu uma plataforma de verificação factual muito interessante e que também inclui ciência. Há ainda uma parceria entre esta plataforma e o Facebook, para garantir que a maior rede social do mundo se torna mais próxima da veracidade na partilha de factos.

Mais do que procurar informação ou submeter questões a profissionais da ciência para verificar a credibilidade de uma notícia, o mais importante neste processo é entender a responsabilidade inerente ao botão “partilhar”. Ao vivemos na era digital é essencial percebermos que vivemos também na era da responsabilidade digital.

A ciência que se faz em laboratórios precisa de chegar à sociedade de forma perceptível, e esse é o trabalho dos comunicadores de ciência. No entanto, há que despertar o espírito crítico da população, antes de partilhar é preciso questionar. Fazer perguntar é essencial para que todos possamos usufruir de uma sociedade mais culta cientificamente. No fim de contas, a informação falsa não é uma doença, mas pode ser tanto ou mais perigosa se for viral.