Artigo

Um Smart Contract não se cansa, nem se engana

This is a picture of my face.

Em breve podemos viver num futuro no qual as organizações já não têm funcionários ou gestores, mas sim um conjunto de rotinas de software que determina as suas acções. Com grupos em que todos os seus intervenientes podem propor, votar, desenvolver e implementar novas medidas, imagino um tipo de gestão cujas decisões são sempre pensadas em benefício da organização.

Foi com esta visão (e com um pensamento mais utópico que distópico) que se imaginaram as Organizações Autónomas Descentralizadas (DAO), um modelo económico que prevê que uma organização seja representada por um conjunto de regras codificadas, transparente e controlada apenas pelos detentores de participação na organização, sem interferências externas.

Os exemplos que conheço utilizam a blockchain de Ethereum para registar as transacções e aplicam as suas ‘regras’ sob a forma de smart contracts. O que são estes contratos inteligentes? São código que contém instruções específicas, encadeadas numa longa sequência de ‘se-isto-então-aquilo’ que determina o que vai acontecer quando uma condição estiver reunida. Um exemplo: numa página web temos a possibilidade de comprar um coleccionável digital. Na blockchain com a qual a página web interage existe um smart contract que verifica se foi transferido dinheiro para um determinado endereço (o utilizador clicou em ‘comprar’) e, caso seja verdade, transfere um coleccionável para o endereço do comprador automaticamente, o dinheiro para o artista e a comissão para a plataforma que realiza a venda - sem intervenção humana e de modo transparente.

Vamos imaginar que a organização autónoma descentralizada de que falamos diz respeito a uma banda que procura financiamento para a edição do novo álbum. Eles começam por lançar uma campanha junto dos seus apoiantes. Ao conseguirem que os seus fãs comprem participação na sua DAO, eles passam a ter votos na organização. O dinheiro resultante da venda das participações é depositado no cofre da DAO.

Após o período inicial de venda das participações, reúnem-se fundos suficientes e parte do dinheiro é enviada automaticamente para o estúdio que vai masterizar o álbum e fazer a edição em vinil.

Qualquer detentor de participação na DAO pode então, por exemplo, propor que outra parte dos fundos seja utilizada para fazer uma edição em K7. Esta moção fica em votação durante um período pré-definido, durante o qual todos os membros da DAO podem votar. Supondo que ocorreu uma maioria, a proposta é aprovada e os fundos são transferidos para o novo fornecedor.

Imaginamos que os restantes fundos eram gastos com a promoção e distribuição do álbum. Isso significaria que, passados uns meses, parte dos lucros das vendas seria depositada no cofre da DAO e todos os detentores de participação, em proporção com a sua parte, partilhariam os lucros.

Há sempre a opção destes fundos que se encontram no cofre da DAO puderem ser re-investidos (após novas propostas em votação) ou retirados pelos seus detentores em troca da sua participação na organização.

Recentemente foi criada uma DAO para comissionar trabalhos de 5 artistas que seriam vendidos durante o período da conferência Devcon 5 em Osaka. A cada artista seria pago um valor fixo estabelecido e das suas obras fariam diversos múltiplos digitais. Os resultados das vendas cobririam o valor inicial da comissão e os (possíveis) lucros seriam então distribuídos pelos detentores de participação na DAO.

Efectivamente, na altura em que escrevi este texto, mais de metade das edições já tinha sido vendida e a DAO estava a gerar lucro, demonstrando com modéstia a viabilidade deste tipo de modelos aplicados à produção cultural.

É fácil imaginar que de experiências como esta possam surgir novas formas de mecenato e financiamento para as artes, mas também novas formas de agregação colectiva, onde os artistas se podem também transformar em accionistas do seu património intelectual; DAOs de artistas que se apoiam mutuamente e que beneficiam colectivamente do sucesso da sua organização é uma realidade já não tão distante. Eu gosto de imaginar que também teremos mecanismos de governação que agem apenas no interesses dos seus cidadãos, mas apenas o passar tempo nos poderá dizer como será o futuro e onde as DAO nos levaram.